sábado, 3 de maio de 2008

Pequeno conto


A pobre da empregada ficou toda estatalada no chão depois de cair da escada. Mesmo depois de cair da escada, a teia de aranha quieta continuava no canto da parede, bem grudada, desocupada e abandonada.
Toda aleijada levantou-se às pressas, desorientada, quando a patroa gritou descontrolada:
- Levanta preguiçosa, porque isso não são horas de nêga ta dormindo!


David Cid

O vilão


O escritor desistiu de dar um fim trágico à menina. Preferiu que ela sobrevivesse ao assassinato. Rasgou a parte do livro que falava da morte dela. Mesmo sabendo disso, o vilão decidiu desrespeitar o autor e empurrou a pequena menina do sexto andar.
Foi por isso que ela morreu.
No entanto, ele culpou o escritor pelo fim trágico da menina.
Por isso, ele não foi preso.
***

PS. No fim da história, todos foram ao enterro da menina, até mesmo o vilão que se tornou escritor e o escritor que se tornou vilão.


David Cid

Uma conclusão qualquer




Um certo dia, procurou a sua velha mochila, colocou nas costas e, por muitos anos, passo a passo, foi seguindo caminho, cantando uma velha música e relembrando os tempos de sua mocidade.


David Cid

Linhas preenchidas



Um dia, os teus passos cruzaram o meu horizonte

Sim, ofuscaram a minha visão!

Lembro quando a tua imagem invadiu o meu ser.

Não entendi o teu súbito surgimento.

Donzela inesperada, refaz, portanto, o meu passado.

Volta à minha frente e inspira a contrução da minha vontade.


David Cid

Mesmo discurso



- Silêncio!
Vez por outra tentava loucamente calar a própria voz.
- Silêncio!
Vez por outra tentavam loucamente calar aquela voz.
- Feche a porta!
A coitada da empregada espantava-se espantada e resmungava.
- Cale a boca!
Resmungava e resmungava.
- Cale a boca! Calaaaa bocaaaa!
Resmungava, resmungava e resmungava.
-... e feche a porta!
E de porta em porta, resmungava, resmungava, resmungava e resmungava...


David Cid

Bem distante




Saltou uma onda; depois, outra, outra e outra. Outra e, por fim, duas outras. O cacho de uva não durou e não saltou. Forçadamente, foi jogado sobre as rochas. Parte de si agarrou à roupa branca, que se confundia com a espuma salgada. Apenas uma luz o guiava. Os pés, então, cada vez menos tocavam grãos ou pedras, o que o fez escutar cada vez mais a voz da água.
...e foi quando, longe dali, curiosos ainda duvidosos, em vão, estiveram imóveis para os cumprimentos.


David Cid

Entre rabiscos




Longe de mim
por um instante
meus olhos estiveram
aos pés dos teus olhos
Ó sublime existência
permita-me conhecer a tua
companhia e o atalho do teu esconderijo.
Aproxima-te de mim!
Vê o meu rosto
E, por fim, chama a ti a minha presença.


David Cid